The Beginning is The End is The Beginning.

•dezembro 3, 2009 • Deixe um comentário

Angels Aley.

Por algum motivo desconhecido, Axel não quis acompanhá-lo, ao contrário, respondeu dizendo que seria um ato inútil, em vão, que Damabiah possivelmente não se encontraria mais naquele local, porém ele precisava tentar, era talvez esta sua mais marcante característica; o fato de sempre explorar todas as possibilidades…

Noite e o frio se espalha pela cidade em forma de brumas. A estação do metrô já não é mais como um formigueiro humano, em outros tempos, tempos anteriores á invasão dos anjos, este lugar, neste mesmo horário, seria o palco de um combate feroz de pessoas regressando aos seus lares depois de um dia inteiro de trabalho. Os passos de Haziel além dos ruídos dos ratos e outros animais furtivos, eram as únicas coisas produzindo som naquele cenário.

Ele seguia lentamente, com as mãos nos bolsos e a cabeça ligeiramente curvada, por outro lado seus sentidos apurados captavam cada nuance, cada mudança diferente que ocorresse a medida que avançava em direção a plataforma 4, pois assim lhe dissera Ariel.

Ariel…

Evitava esse pensamento com todas as forças que podia, descartava memórias, focalizava um único objetivo; Metraton. Mas como tantas outras coisas na vida, sendo a criatura humana, anjo ou demônio, sempre há exceções e inevitabilidades…

Dentre um número incalculável de coisas, flores faziam com que se lembrasse dela, o frio que é a ausência de calor, fazia com que recordasse beijos, carícias e abraços.

Haziel soltou um suspiro, a sua frente, mesmo com toda a escuridão da estação desativada, ele conseguiu discernir o letreiro que indicava a plataforma 4. Ariel lhe contara sobre Damabiah, sobre a traição de Axel e o furto da Adaga. Tudo isso jaz no passado agora, todos os elementos que contribuíram com a noite em que Ariel foi vítima da lâmina de Axel numa tentativa desesperada de protegê-lo, não morrera é claro, mas perdera seu corpo formado de matéria humana, retornando em espirito para Paradísia. Tal ato tornou impossível para Ariel um retorno a Terra, e assim seria por séculos se o próprio Haziel não houvesse invadido a Cidade de Prata por ela e assim conseguindo, com a ajuda de Madeleine, o transporte de Ariel uma vez mais para o plano terrestre.

E então fez-se luz, clareando absolutamente toda a estação, porém criando sombras de variadas formas… Haziel parou, ficou imóvel com os olhos fitos na criatura sentada em um dos bancos, pareceria apenas um transeunte humano esperando pelo metrô se não fosse o misterioso Damabiah…

Os cabelos eram compridos, brancos pois não possuem cor, é o que o branco significa, ausência. Damabiah usa uma túnica negra, réplica da usada pelos anjos de Paradísia. Axel deixara-se levar por ele, mas Haziel, devido ao tempo que passou entre os Obscuri Nimbus, guardava mais informações sobre aquela criatura do que a própria poderia imaginar…

_ Ai está você, o caído, a alegria dos olhos do sumido Gabriel. Você quase desperta ansiedade em mim, Haziel, talvez o fizesse se eu não soubesse porque veio… E mesmo que a Adaga esteja comigo eu não tenho motivo algum para entregá-la a você…

Como se as palavras de Damabiah tivessem rodopiado pelo ar sem lhe atingir, Haziel prosseguiu caminhando até se por diante do Principado.

Sim, ele queria a Adaga, viera por ela, entretanto não era o poder contido na arma que desejava… A Adaga pertencia a Ariel, apenas um objeto, mas que ela carregou durante muito tempo, mais que tudo era uma preciosa lembrança, uma reminiscência que Haziel desejava segurar em suas mãos e talvez por um momento, um relance, sentir uma vez mais o cheiro dos cabelos dela, o calor da pele, ou simplesmente tocar algo que fora-lhe inestimável… Ariel esta morta, teve sua existência interrompida pelas mãos de Metraton, enquanto Haziel pergunta-se todos os dias o porquê de ainda prosseguir…

_ Ah! – exclamou Damabiah, em seguida desatou a rir feito louco, o som de sua gargalhada reverberou por todos cantos da estação, parecia vir de todas as direções, menos da boca escancarada que ele oferecia a Haziel.

_ Agora sim minhas esperanças de entretenimento findaram-se de vez. Então deseja a Adaga para poder enxugar lágrimas inúteis? Não lamento decepcioná-lo, Haziel, mas em primeiro lugar a Adaga não está comigo, em segundo, pare com as lamúrias, sua anjinha ainda não está morta…. ou deveria dizer a anjinha de seu irmão? Ele esteve aqui, querendo saber como encontrá-la, mas acho que não lhe contou, não é? Está surpreendido? Sim, você está, posso ver claramente através dos seus olhos tristes… vejo a escuridão que compartilha com Axel e também vejo seu desapontamento. Agora mesmo está pensando no porque de Axel ter omitido, escondido de você esse tempo todo a verdade, talvez ele queira ser o herói do dia, imagine só, invadindo o local secreto onde Metraton mantém a anjinha aprisionada. Acho que ela o amaria por isso, você não acha, Haziel?

Viva, Haziel pensava, concentrava-se apenas naquelas quatro letras. Viva. E Axel sabia! A Adaga já não tinha importância alguma agora, nem mesmo Damabiah, ele sentia-se sozinho ali, mergulhado num mar de possibilidades. Em seguida sentiu urgência, sentiu que precisava correr, que precisava chegar a algum lugar, precisava vê-la, tocá-la… – Ariel…

_ Acho que não preciso mais de você – Haziel deu as costas ao Principado, fazendo menção de deixá-lo.

_ Vá, anjo caído, vá depressa! Olhe para o céu, Haziel… – Damabiah ficou de pé, era difícil dizer se ele se apresentava numa forma feminina ou masculina, até sua voz era assexuada.

_ Eu vejo pequenas rachaduras nas nuvens, é como se a gravidade fizesse maior pressão agora, e abaixo, muito além do que os pés humanos podem tocar, vejo hordas de demônios cavando para chegarem a superfície. A Terra está no centro do fim. Vá, Haziel, vá.

Sem se importar com as palavras de Damabiah, Haziel seguiu, não demoraria pra que chegasse até as escadas que o deixariam longe da estação, porém três indivíduos surgiram a sua frente, todos portando espadas e vestidos com os trajes que os anjos adotaram quando invadiram a Terra; ternos escuros e gravatas brancas. Haziel os conhecia…

_ Ou então não vá, anjinho, fique, acho melhor que fique, eu mesmo v ou voltar a me sentar. E me perdoe por isso, é cortesia de Metraton, pessoalmente acho emboscadas impessoais demais pra o meu gosto um tanto quanto mais requintado. – Damabiah sentou-se outra vez, deixou que suas costas descansassem na parede atrás de si.

O olhar de Haziel se revezou entre os três a sua frente.

_ Omael, Lecabel e Vasahiah, eu não desejo lutar com vocês. – disse Haziel aos três Dominações que se interpuseram em seu caminho.

_ Então basta que se entregue, Haziel, Metraton será complacente diante disso. – respondeu o General Lecabel, segundo em comando depois de Tsadkiel, líder dos Dominações.

_ Não posso fazer isso… – retrucou Haziel.

_ Sugiro então que invoque sua arma. – foi a vez de Omael falar, dando um passo a frente. _ Eu serei o primeiro.

_ Que seja. – a espada de Haziel surgiu em sua mão.

Omael avançou veloz, precisou apenas de cinco passos para poder ficar diante do traidor Haziel, quando o fez, ao erguer sua arma para por um fim nisto, Haziel antecipou-se. A arma do anjo cáido perfurou o peito de Omael, trespassando-o quando a ponta da lâmina surgiu nas costas do Dominação. Em seguida, com um único e rápido puxão, Haziel retirou sua espada do corpo do anjo. Omael soltou um suspiro, seu olhar desvaneceu e sua alma deixou o corpo que caiu sem vida ao chão da estação.

Vasahiah se posicionou, moveu sua cabeça num gesto de deferência para com Haziel e empunhou sua arma, pedindo que o outro se preparasse. Haziel respondeu apontando a espada na direção dele e olhando de forma séria. Isto é seu lar, em nenhum outro lugar ele se sente tão a vontade do que num combate, agora, ele pensava, talvez tenha acabado de descobrir o motivo que levara Gabriel a treiná-lo em combates de forma exaustiva por incontáveis anos.

A espada de Vasahiah se moveu, impulsionada por sua poderosa força, mas sendo interrompida pela lâmina de Haziel. E assim prosseguiram, ataque, defesa, ataque e defesa. Diferentemente de Omael, Vasahiah era um oponente mais estratégico, mas foi derrotado quando Haziel conseguiu romper sua defesa e cravar mais uma vez sua espada no peito de um outro anjo.

_ Disseram que você era bom, mas eu não imaginei que fosse tanto. Estou honrado com essa oportunidade de combate. – Lecabel disse ao se aproximar para o combate.

_ Eu preferia não ter de combatê-lo, Lecabel.

_ Entendo, mas não temos escolha quanto isso.

E assim lutaram, Haziel e Lecabel, suas espadas se chocaram criando faíscas que iluminaram a estação parcialmente escura. Damabiah sorria com os olhos atentos na cena que se desenrolava a sua frente. Lecabel conseguiu atingir Haziel, sua espada deslizou pelo abdômen do anjo caído, cortando-o profundamente. Haziel se afastou e tocou a ferida recém aberta em seu corpo. Ele sentiu em seus dedos a substância negra espalhar-se pela ferida. – o sangue de Tenebras.- Lecabel atacou outra vez, mas Haziel o esperava, surpreendeu o Dominação quando girou seu corpo e atingiu a espada de Lecabel, desarmando-o. Lecabel viu sua arma ser atirada longe e então sabia que estava derrotado. Resignou-se, fechando os olhos e esperando pelo golpe final. Para ele este havia sido de fato um combate honrado, não estava triste por ter perdido, voltaria para Paradísia, o que seria bem melhor do que ficar na Terra cumprindo ordens das quais não acredita serem justas. Sua vontade foi feita quando a espada de Haziel arrancou a cabeça do corpo feito de matéria humana. Lecabel estava livre.

Damabiah quase se irritara quando a espada de Lecabel voou em sua direção, cravando na parede ao seu lado, faltou apenas alguns centímetros para que isso o tivesse forçado a se esquivar. E no olhar de Haziel ele vira que tudo fora feito propositadamente. Então Haziel por trás daquela aparência triste e tola era mais insolente do que Axel…

Haziel viu o corpo de Lecabel desaparecer e compartilhou do mesmo sentimento que os Dominações, experientes e honrados anjos de batalha, experimentaram. Foi de fato um bom e justo combate. Então se virou para Damabiah e viu o Principado imóvel no mesmo lugar, conseguira tirar-lhe o sorriso da face quando jogou a espada de Lecabel em sua direção.

_ Diga a Metraton que o inferno dele começa hoje.

Sean Cavendish e Jane Morrison; Um Mundo de Luz.

•novembro 24, 2009 • Deixe um comentário

Sean Cavendish sempre foi tido como um cara extrovertido e bem humorado. Foram precisamente estas características aliadas a sua bela voz, que o levaram a uma bem sucedida carreira numa das estações de rádio mais famosas da Califórnia, onde ele tem seu próprio programa; “Cavendish Online”.

Esta é uma noite de mudanças, Sean está ciente disto, sua vida irá mudar para sempre, ou talvez chegar ao fim…

Enquanto ele está sentado dentro do estúdio, parecendo pronto para mais uma noite comum de trabalho, isto é claro num primeiro olhar, porque num segundo e mais detalhado, estaria mais que evidente que Sean parece com um condenado a morte esperando por sua execução.

Fora do estúdio está Jane Morrison. Ela acabou de cumprir o seu papel como programadora da rádio, também deixou a fita que Sean trouxe com ele esta noite. Jane está tão nervosa quanto Sean, porém o amor platônico que nutre por ele a faria ir ao Inferno se fosse preciso. Agora restava apenas um último ajuste, e quando ela terminou, quando estava tudo preparado para Sean entrar no ar Jane soltou um suspiro.

_ Sean, você tem certeza? – a voz de Jane soou, vindo das caixas de som dentro do estúdio onde Sean esperava que ela acendesse a luz vermelha que indica que ele está ao vivo.

_ Não, Jane, não tenho. Mas acredito… – retrucou Sean com um murmúrio. Agora ele revia como se fosse um filme reprisado os eventos de ontem a noite. Via a si próprio caminhando pelas ruas, era bem tarde da noite, e ele havia passado e muito do horário estabelecido pelos anjos como toque de recolher. Definitivamente, pensava ele enquanto se esgueirava pelas sombras, estaria frito se encontrasse algum deles. A que ponto o mundo chegou? Parece o fim do mundo, não aquele descrito na bíblia, não com demônios soltos na Terra, mas com anjos. Acreditamos em mentiras por tempo demais… pagamos por isso agora.

_ Jane, você trancou as portas? – perguntou ele.

A resposta de Jane foi dar uma olhada para a única porta que alguem poderia usar tanto para entrar e para sair do estúdio. A porta não só estava fechada, mas com um pesadíssimo armário que ela se esforçara para empurrar, bloqueando de vez a passagem. Ela sabia que de nada adiantaria, tudo era uma questão de tempo. Aquilo não vai servir pra impedir os anjos de entrarem, pois eles virão, ela não tinha duvidas, é só uma questão de tempo. Subitamente ela se lembrou de quando era criança, de quando tinha medo de dormir no escuro e sua mãe lhe ensinara uma oração para o anjo protetor. Ah, mãe – pensava Jane – que anjo protetor?

_ Sim, Sean. Está tudo pronto para quando quiser começar. – respondeu Jane.

Sean respirou fundo e em seguida sorriu, moveu seus lábios lentamente para formar o sorriso que Jane tanto adora. E então assentiu com a cabeça. Ele estava pronto.

_ Boa noite, ouvintes, sou Sean e vocês estão ouvindo o Cavendish online. – disse após Jane apertar um botão e a lâmpada vermelha que indica o início do programa acender-se. Definitivamente não se parecia com o Sean de todas as noites, ele falou sério, e em seguida fez silêncio. Tinha tudo decorado, sabia bem como começar e como terminar, mas estava com medo. Sean Cavendish estava quase se borrando de medo.

_ Os anjos estão entre nós. Há dois anos atrás, precisamente em 2012, por sinal a mesma data da previsão apocalíptica Maia, eles chegaram. Foi o tipo de acontecimento inesquecível, daqueles que anos depois perguntamos uns aos outros onde cada um estava quando aconteceu. Bom, eu estava com Jane Morrison, a mestra de todos os equipamentos e parafernálias eletrônicas que levam minha voz até os seus rádios. Bebíamos uma cerveja após um exaustivo dia de trabalho quando todas as TV’s pararam para noticiar a chegada do Seraphim Metraton e seus anjos até a Casa Branca. Todo o mundo ficou parado diante das televisões. Incrivelmente belo com seus cabelos negros e as longas asas que fez questão de exibir. A repórter falava em milagre, dizia ela que o Seraphim comunicara ao presidente dos Estados Unidos que os anjos estavam na Terra para salvar todos nós do apocalipse, e que o Anticristo já caminha entre nós atendendo por um nome de anjo, Haziel.

_ Eu acreditei, senti vontade de correr para uma igreja e me confessar. Dizer a Deus o quanto ele é maravilhoso e agradecer por ter nos enviado seus anjos. Não. Eu não fui o único, creio que todos nós sentimos, talvez de variadas formas, a mesma coisa; fé absoluta.

_ No começo tudo é maravilhoso, não foi diferente dessa vez, nunca será. Estávamos todos cegos para ver a verdade. Não nos importamos quando Metraton ordenou que todos os presos nas prisões fossem executados. – tem de ser separado o joio do trigo – disse ele. A Santa Cruzada dos anjos durou apenas dois dias. Todos os países muçulmanos foram expurgados, os sobreviventes foram convertidos para a nova religião que basicamente consiste em adorar e obedecer a Metraton acima de todas as coisas. Os anjos dominaram todo o mundo que Deus levou seis dias para criar em apenas quatro. Este é o nosso mundo agora, onde pessoas desaparecem sem deixar rastros, outras viraram fanáticos religiosos, as igrejas proliferam a propaganda de Metraton como se fosse um anúncio de bebidas de graça. Nossas cidades foram arrasadas, a energia elétrica mal funciona porque as pessoas deixaram de trabalhar e esperam pela salvação que nunca chega. Os anjos vieram mudar o mundo, salvando-o, mas não é a verdade. Não pode ser a verdade. A verdade não pode ser tão suja e feia. Deus não está aqui. – Sean se calou, estava suando como se ali dentro fosse uma sauna. Respirou profundamente. – falta pouco agora, Sean, continue.

Jane o fitava por trás do vidro que separava a sala dos aparelhos e o estúdio. Ela chorava sem lembrar quando foi a última vez que isso acontecera. Seu olhar mudava constantemente de Sean para a porta, a ansiedade a fazia sofrer.

_ Ontem eu voltava para casa, estava atrasado, tinha passado largamente do horário do toque de recolher. Então eu corria com medo de encontrar algum anjo… – ele parou de falar, parecia fazer uma reflexão sobre a última frase que dissera, considerando-a um paradoxo.

_ Um pequeno tumulto chamou minha atenção. Vinha de um beco escuro e malcheiroso. Enchi-me mais de curiosidade do que coragem e segui em direção. Vi a tempo de me esconder atrás de uma lata de lixo, dois anjos de pé. Estavam vestidos com o traje costumeiro, ternos negros, calças de igual cor e gravatas brancas. Arrastando-se pelo chão havia um senhor ferido suplicando em nome de Deus que sua vida fosse poupada. Um dos anjos, o de cabelos castanhos, disse “As bebidas alcoólicas foram banidas. O comércio de um item banido é crime punível com…” – algo extraordinário aconteceu, impedindo o anjo de prosseguir com suas palavras e arrancando todo o ar dos meus pulmões.

_ Ele caiu do céu… literalmente. O beco tremeu quando seus pés tocaram o solo. O que vi foi um homem muito parecido com os anjos, a mesma pele clara, quase luminosa. A íris dos seus olhos possui aquela estranha iridescência dos seres celestes, não possuíam uma única cor, mas todas as cores do ambiente onde repousa seu olhar. Olhou diretamente para mim durante alguns segundos, era o único que podia me ver. Os anjos sacaram suas espadas daquele modo misterioso que não conseguimos entender, as armas simplesmente se materializaram em suas mãos. O recém chegado os encarava agora e então outra coisa ainda mais extraordinária aconteceu quando sua pele enegreceu até ele parecer feito de carvão. Linhas amarelas, brilhantes, percorriam todo o seu corpo formando um estranho padrão. Parecia um demônio saído diretamente do inferno. Medo, foi o que vi nas faces dos dois anjos. E quando o demônio negro rosnou, revelando pontiagudas presas, as asas dos anjos surgiram e rapidamente eles ganharam os céus, fugindo apressados. Quando voltei a olhar para o ser que os afugentara, ele já tinha voltado a ter a mesma aparência de quando chegara. Creio que tenha se esquecido de mim, caminhou em direção ao senhor e o ajudou a se levantar, este por sua vezes era mil agradecimentos pela sua vida salva.

_ A porta aberta logo atrás deles era a da casa daquele senhor, ao que parece os anjos o tiraram lá de dentro e o estranho acabara de ajudar o homem a entrar, em seguida voltou-se para mim. A essa altura eu já estava de pé e quando ele deu um passo a frente, eu dei três para trás. Tinha visto ele salvar a vida daquele senhor, mas ainda assim eu estava com medo.

“Não desejo lhe fazer mal.” – ele disse. Sua voz era tranquila, melodiosa, e de vozes eu entendo bem, não parecia com um demônio.

“Mas quem é você?” – eu perguntei.

“Meu nome é Haziel.”

Haziel, o Anticristo, foi o que pensei na hora, em seguida pensei em correr, mas deixei de lado essa idéia quando lembrei que ele tinha posto dois anjos pra correr, se me quisesse morto, certamente eu não estaria mais respirando.

“Temos de sair daqui antes que eles voltem.” – ele completou. Voltar? Mas claro, se este é o Haziel tão procurado por Metraton, os anjos fugiram, mas certamente voltariam com outros…

_ Haziel, conhecido como o Anticristo, aquele que veio pra por um fim no mundo, aquele por qual Metraton e seus anjos vieram combater e nos proteger. Fui com ele, ou melhor, levei-o comigo. Andamos apressadamente, indo em direção ao meu apartamento. Por algum motivo além do fato dele estar ali, salvando pessoas, lutando contra os anjos que considero opressores, confiei nele absolutamente. Preciso dizer, foi quase algo mágico, simplesmente senti que tudo o que ele fizesse ou dissesse seria a coisa certa. Eu o enchi de perguntas, ele mal respondia, estava concentrado e preocupado com o fato de que outros anjos poderiam aparecer. Foi então que tive a idéia…

_ Com muita dificuldade eu o convenci, apesar de Haziel não acreditar em minha idéia, relutar muito, aceitou. Levei-o direto a casa de uma pessoa de confiança que poderia nos ajudar com a coisa. – neste momento Sean Cavendish ergueu a face e olhou para Jane. Não falaria o nome dela, se as coisas derem errado, o que é certo acontecer, talvez aja uma forma de poupá-la ao menos.

_ Enfim, o resultado do que fizemos foi uma gravação que vocês ouvirão agora.. Eu acredito em todas as palavras, eu Sean Cavendish, conhecido por todos vocês, digo que não está certo a forma como o nosso mundo têm sido tratado por estes que deveriam ser nossos protetores e não ditadores. Que a verdade faça com que vocês voltem a enxergar. – Sean fez sinal pára Jane e ela depois de piscar o olho para ele e sorrir, fez o que devia.

Um barulho de estática, um pequeno, mas ruidoso chiado e então um som de algo se quebrando, ou apenas o botão de um gravador sendo acionado.

_ Pode repetir seu nome para mim? – era a voz de Sean,

_ Haziel. – respondeu uma outra voz.

_ Você é o Anticristo como falou Metraton?

_ Se sou, é algo do qual não tenho conhecimento.

_ Então todas as coisas que Metraton disse são mentiras?

_ Não exatamente, tendo em vista que ele acredita , apesar de ser uma visão distorcida e diferente da minha.

_ Você pode falar mais sobre isso?

_ Metraton acha que os humanos invariavelmente são corruptos, ele não acredita em vocês. Eu acho que não devo ter opinião quanto a isso. A Terra pertence a vocês, foi criada assim, a responsabilidade por este mundo é humana e não dos anjos.

_ Então Deus não está por trás dos atos de Metraton?

_ Impossível que esteja.

_ Porque?

_ Há séculos Demiurge não fala com seus anjos.

_ Você já falou com Deus, Haziel?

_ Não sou tão antigo assim. Nunca falei com Ele.

_ Você é um deles, um anjo?

_ Não sou mais…

_ Porque estão atrás de você? Por que Metraton fez com que todos acreditassem que você é o Anticristo?

_ Pra começar Anticristo é um termo criado por vocês, humanos. Metraton apenas se aproveita de seu folclore, aliás é o que os anjos fazem há eras. Porém com relação a mim, de certa forma ele talvez tenha razão…

_ Como assim?

_ Esqueça! É um assunto que não vai ajudar nenhum de vocês.

_ Ok. Haziel, existe uma forma de nosso mundo voltar a ser como antes?

_ Não creio. Seu mundo foi alterado para sempre. Matraton mudou consideravelmente o curso da história humana.

_ Porque está contra ele?

_ Todos os anjos foram criados para serem como soldados, guardiões da criação, mas possuímos o livre arbítrio como os humanos. Por isso Lúcifer se rebelou, por isso outros rebelaram-se, temos o direito de escolher. Mas ao todo, em maioria, fazemos o trabalho para qual fomos criados. Mas quando Demiurge ficou em silêncio alguns passaram a questionar o que faziam. Miguel e Gabriel mantiveram a ordem, mas os dois estão desaparecidos, assim Metraton, líder dos Seraphins, assumiu o comando. Não sou herói, Sean Cavendish, não sou o salvador da humanidade. Faço apenas o que fui criado para fazer.

Sean e Jane ouviram um barulho impossível de definir a direção, no estante seguinte foi impossível para eles enxergar qualquer coisa. A luz elétrica se foi, tirando a rádio do ar. Jane ficou de pé e correu em direção a Sean, assim que ela passou em frente a porta, o armário usado como barricada explodiu. Ela foi jogada para dentro do estúdio, caindo aos pés de Sean. A luz de emergência acendeu, clareando todo o lugar o suficiente para Sean ver o anjo passando pela porta destroçada.

Terno escuro, gravata branca, cabelos negros e bem penteados pra trás. Sean não teve dúvida, por isso não hesitou. Ele havia se preparado, mesmo que não fosse servir para salvá-los, mas se tivessem que morrer ali, ele e Jane, ao menos isso não seria tão fácil. O anjo não esperava, foi surpreendido quando Sean sacou uma pistola e descarregou um pente inteiro no seu peito.

Aquilo não mataria um anjo, mas foi suficiente para Sean agarrar Jane e correr para fora do estúdio. No corredor, sem outra opção, eles tomaram as escadas. A rádio fica no terceiro andar, pulando de três em três degraus, eles rapidamente chegaram ao térreo e encontraram o porteiro desmaiado. Iam conseguir, Sean pensava, seu carro estava estacionado logo ali na frente! Iam conseguir…

Jane foi atingida primeiro, o punho do anjo, sua força, fez com que o corpo dela fosse atirado longe, e ela caiu de qualquer jeito no asfalto. Sean não teve tempo de reagir, a mão do anjo se fechou contra seu pescoço, faltou-lhe ar quando seus pés foram arrancados do solo.

Jane tentou se levantar, seu pescoço doía terrivelmente, seja lá o que a atingira quase a matara. Chovia agora, seus cabelos grudavam a sua face, misturando chuva e sangue. Jane estava desorientada, mas ao ficar de pé e ver Sean sufocando com os dedos do anjos envolta do pescoço. Jane gritou, chamou por Sean, correu, indo em direção a eles, não sabia o que faria quando chegasse lá, mas não deixaria aquele anjo filho da puta matar Sean.

“Não, Jane, vá embora!” – pensava Sean, teria gritado se lhe fosse permitido.

Antes que Sean morresse, antes que Jane chegasse a ele, um estampido alto foi ouvido. Sean apenas sentiu quando sangue jorrou em sua face, por um momento achou que o sangue fosse seu, que estava morto, mas não foi o que aconteceu. Seus pés tocaram o solo outra vez e ele viu o anjo cambalear para trás. Sean olhou ao redor e viu um homem de pé no meio da rua, a chuva caia mais forte agora. O homem tinha um rifle na mão, um tiro havia atingido o anjo no pescoço. Sean correu em direção a Jane e viu várias pessoas chegando ao local.

Um ferimento no pescoço, nada grave, já começava a regenerar quando ele se virou e viu uma multidão na rua. Pessoas armadas com pedaços de madeira, outras com facas, e armas. Armas de fogo foram proibidas, o anjo sabia, mas não estava em posição para punir ninguem por aquele delito. Era uma rebelião e ele devia ir embora, chamar pelos outros, mas obviamente seria repreendido por não cuidar de uns poucos humanos. Encheu-se de fúria. O anjo invocou sua espada que logo materializou-se em suas mãos. Deu alguns passos em direção aos humanos, retalharia todos, tão rápido, tão rápido que morreriam antes de saber o que lhes aconteceu.

Porém o anjo estacou no mesmo lugar. Seu olhar não estava mais na multidão a sua frente, seus olhos fixaram-se algo num ponto mais alto, em cima do prédio a frente havia um ser oculto pela noite. E o anjo sabia que era alguem que ela não tinha capacidade para enfrentar sozinho…

Sean vira o anjo caminhar em direção a eles. A multidão atrás de si estava incitada o suficiente para não desistir com a simples visão de um único anjo. Haveria luta, essas pessoas ouviram seu programa, ouviram as palavras de Haziel, isto é uma insurreição, não estamos derrotados ainda. Não estamos derrotados. Ele ouvia os gritos; “Este é o nosso mundo” – “Fora, anjos”. – Sean Cavendish encheu-se de coragem uma vez mais, ia gritar quando viu que os olhos do anjos agora estavam fixos em um outro ponto. Ele se virou e viu o mesmo que seu inimigo, porém reconheceu no exato instante aquele que observava tudo calado. Chamou Jane, apontou para ela a direção. Foi Jane Morrison quem pôs em palavra o pensamento de Sean e do anjo.

“Haziel”.

Um raio abandonou as nuvens e singrou o céu noturno, explodindo em algum lugar afastado, mais iluminando o homem parado em cima do prédio.

Quando Sean se virou outra vez na direção do prédio da rádio, o anjo que quase o matara já não estava mais lá.

Ao contrário de Sean, Jane não conseguia deixar de olhar para Haziel. Lembrava bem tudo o que acontecera na noite passada, quando Sean entrara em seu apartamento com ele, implorando que ela o ajudasse num plano ousado. Jane ficara encantada com ele, não apaixonada, mas pareceu-lhe tão triste, parecia alguem carregando um peso muito maior que si próprio. Ele dissera que não era um herói, que não era o salvador da humanidade, mas se precisasse orar a um anjo da guarda, Jane Morrison já sabia o seu nome, Haziel.

Lelahel, a Justa.

•novembro 17, 2009 • Deixe um comentário

_ E então, Lelahel? – perguntou Metraton, líder dos Seraphins e atual regente da Cidade de Prata desde o misterioso desaparecimento de Miguel.

Lelahel mantinha a cabeça curvada, porém não era um gesto de deferência ao líder de sua casta, mas sim por estar transbordando de ódio. Falhara miseravelmente em sua missão, o que era uma simples caçada a um traidor tornou-se humilhação, tal coisa estava mais do que evidente no fato de sua poderosa Lança Captare ter sido destruída por aquele que ela deveria ter eliminado.

_ Ele escapou. – ela respondeu, erguendo a face e encarando seu interlocutor.

Metraton cerrou o punho e bateu com ele no braço da cadeira, visivelmente irritado com a notícia, levantou-se. O líder dos Seraphins tem cabelos negros e lisos como a seda, compridos até tocarem sua cintura. A cor de seus cabelos faz uma bela sintonia com os olhos igualmente negros, entretanto, quando se aproximou da Seraphim que tem madeixas e olhos tão claros a ponto de parecerem brancos, o contraste entre os dois foi evidente.

_ Pensei ter mandado você afim de que não acontecessem mais falhas… – falou Metraton.

_ Deixe-me voltar e prometo que não haverá mais falhas… – dizia a Seraphim antes de ser interrompida.

_ Não! – exclamou Metraton. _ Envergonhou toda a tua casta. Uma Seraphim derrotada por um verme caído. Se eu permitir outra falha desta estarei pondo em risco minha credibilidade com os Antigos. Tenho um outro plano… – disse ele, deixando no ar uma sombra de mistério.

Lelahel tinha a intenção de insistir, fora derrotada, era seu o direito de vingar-se… vingança? Então é isto agora? – indagava-se. – neste momento as palavras da Haziel soaram outra vez em sua mente. “Lelahel, a Justa. Sua simples visão servia para encher os outros de coragem… quis um dia ser como aquela Seraphim…” – ela arregalou os olhos. Porque as palavras de um demônio não a abandonavam?

_ Lelahel? Lelahel? – insistia Metraton, irritado ao ver a Seraphim tão distante. Ele prosseguiu assim que o olhar dela voltou em sua direção. _ Dei ordem para que todo o exército celestial se prepare.

Ela ficou surpreendida com o que acabara de ouvir. Tal ato só podia significar que Metraton esperava por um ataque a Cidade de Prata, ou talvez…

_ Vamos invadir a Terra… – prosseguiu o líder dos Seraphins. _ Quero que lidere nossas falanges, Lelahel.

Loucura! Metraton só podia ter perdido a razão. Nem Lúcifer ao se rebelar cogitara algo tão… errado.

_ Metraton, eu lhe imploro… – era a primeira vez em toda a sua existência que ela suplicava por algo. _ Deixe-me voltar e matar Haziel…

_ Já está decidido. – ele a interrompeu mais uma vez.

Metraton estava de frente para ela agora, ergueu sua mão direita e tocou de forma carinhosa a bela face da Seraphim.

_ Os humanos são tolos, fracos e cegos devido ao excessivo egoísmo. A Terra é um plano maravilhoso e rico, é um dom que o Demiurge desperdiçou ao legar a criaturas incapazes. Temos a obrigação de intervir, não fomos criados para sermos os guardiões deles? Mas se o mal não são apenas demônios? Temos de proteger a humanidade de sua própria estupidez. Seremos seus guias. Certamente não será simples, teremos de agir com força, extirpar as ervas daninhas, destruir o antigo para que das cinzas, como uma fênix, ressurja um novo mundo. Eu farei da Terra uma nova Paradísia, Lelahel. Fique ao meu lado. A humanidade precisa de um pai presente e também severo, assim como precisa de uma mãe… – disse Metraton, em seguida se inclinou numa mal sucedida tentativa de tocar os lábios de Lelahel com os seus.

Ela se desvencilhou dele e afastou-se com alguns passos para trás.

_ Este é o desejo do Demiurge? – Lelahel indagou.

O semblante de Metraton mudou, a esquiva dela o irritara.

_ Por acaso você tem falado com ele? Pensei que Demiurge estivesse mudo há séculos. – retrucou Metraton.

_ Então isto significa que está agindo apenas conforme suas próprias intenções e desejos. Não havendo ordem direta do Criador tais atos, Metraton, fazem de ti um traidor – Lelahel foi direta como se subitamente seu apurado senso de justiça retornasse. “… quis um dia ser como aquela Seraphim…”

_ Acusa-me de traição? Eu quero salvá-los! Achei que você compreenderia… – seria genuína a nota de tristeza nas palavras do líder dos Seraphins?

_ Fui criada para compreender todas as coisas que são justas… – finalizou Lelahel antes de abandonar a sala, deixando Metraton imóvel, mal conseguindo conter sua fúria.

Todos os “Lugares” Onde Eu Existo.

•novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

Haziel._ Aqui você não tem asas…

“Flores… Um momento antes de despertar e abrir os olhos, o cheiro tão familiar das flores nos campos verdejantes em Paradísia adentrou minhas narinas e senti gosto de terra na boca. Encontrei-me deitado num gramado. O sol forte tocando minha pele, aquecendo-me e proporcionando uma tranqüilizadora paz que não sinto há muito tempo. Sentei-me sem esforço algum, o que foi digno de nota, tendo em vista todos os últimos acontecimentos, tendo em vista todas as feridas e dores que assolavam meu corpo desde quando voltei do Inferno pela segunda vez. Ao meu redor é tudo tão parecido com Paradísia, mas, mesmo com o odor das flores tão semelhantes, ainda assim, sei que não estou no Plano dos Anjos. É um outro lugar… Um lugar tão perfeito que parece irreal…”

Viu a menina e, sobressaltou-se com a aparência tão semelhante… A pele branca como mármore, lábios vermelhos como uma rosa e os cabelos tão rubros quanto a aurora vista pela Cidade de Prata. Ela lhe pareceu uma copia idêntica de uma Ariel com pelo menos oito anos de idade.

_ Mas em outros “Lugares” você ainda tem suas asas… – a voz da menina é típica de uma criança com oito anos, mas, Haziel conseguiu discernir nela uma semelhança lírica com a voz de Ariel e uma estranha perfeição na forma que ela diz as palavras…

_ Que lugar é este? – ele perguntou, olhando ao redor e vendo a paisagem verde que parece quase infinita.

_ Um ponto neutro entre todos os “Lugares”.  – respondeu a menina. Ela não o olhava, tinha sua atenção voltada para a rosa em sua mão.

_ Como eu vim parar aqui? Você sabe? – ele perguntou empregando um tom calmo.

_ Eu te trouxe aqui.

_ E porque? – perguntou o Anjo Caído.

_ Quero mostrar pra você alguns dos outros “Lugares”. – a menina agora o olhou, em seguida se levantou e caminhou até ficar de frente para Haziel. _ Você é mesmo muito bonito.  – afirmou.

_ Você parece muito com alguém que conheço…  – ele murmurou.

_ Alguém que você ama? – ela perguntou e pela primeira vez pareceu apenas uma menininha falando.

Haziel ficou em silêncio, parecendo avaliar a pergunta…

_ Sim, alguém que eu amo mais do que tudo, e apesar de tudo…  – Ariel…

A menina estendeu a mão em direção dele.

_ Há “Lugares” onde vocês estão juntos e são felizes…  – ela voltara a falar de uma forma distante, como se estivesse pensando em algo mais importante.

_ Eu não compreendo o que você esta tentando me dizer…

_ Segure a minha mão, Haziel.

Ele segurou.

Gritos. Haziel abriu os olhos pela segunda vez e viu um lugar totalmente diferente de onde estava há pouco. A menina ainda estava com ele, segurando sua mão enquanto ambos caminhavam por uma rua de alguma cidade que ele não fazia idéia de qual. Contudo, viram prédios destruídos, chamas, corpos de seres humanos mutilados. Viu demônios passearem pelas ruas, alguns comendo o que sobrara dos cadáveres, viu anjos mortos, com seus corpos pregados contra as paredes e sem suas asas.

Viu uma moça jovem correndo, gritando enquanto demônios a perseguiam. Ele tentou soltar a mão da menina para poder ajudar a jovem, mas a menina o impediu..

_ Você não pode fazer nada por eles aqui neste “Lugar”. Eles não podem nos ver, e nós podemos ver, mas não podemos tocar. Venha, quero que veja outra coisa…  – ela o puxou.

O Anjo Caído olhou para o céu e viu gigantescas manchas vermelhas, como se golpes de espadas tivessem aberto enormes feridas, fazendo o céu sangrar. Tudo a sua frente e ao seu redor é dor e destruição. E então, surpreendentemente, viu uma das torres da Cidade de Prata encravada no meio de um prédio. Não havia dúvidas de que este lugar é a Terra, mas ainda assim, o que uma torre da Cidade de Prata poderia fazer ali?

_ Os planos se uniram, Haziel, aqui você tem suas asas. Veja! – ela ergueu sua pequena mão e apontou.

O Caído viu, com espanto, um grupo de anjos caminhando com suas asas expostas, dentre eles divisou a figura de si mesmo…  Eram seis anjos, não se vestiam com roupas de Paradísia, mas usavam vestes humanas e sua contra-parte parecia ser o líder do grupo, então ouviu o que eles diziam.

_ Irmão Haziel, devíamos seguir as ordens, mas você parece tê-las esquecido e estar nos levando numa missão de pura vingança pessoal… Desculpe-me, todos nós lamentamos a morte de Ariel, entretanto, nossa missão não é ir atrás do traidor e assassino Axel.  – disse um dos anjos. Haziel não o reconheceu.

_ Vocês não precisam vir comigo. – respondeu o outro Haziel. Ódio e fúria em seus olhos. Em seguida deixou o grupo e tomou outra direção.

Haziel Tornou a olhar para a menina.

_ O que significa isso?  – perguntou. Sentiu-se tonto e confuso.  – Ariel, morta por Axel…?

_ Este é o “lugar” onde você optou por não perder suas asas, este é o mundo onde você não protegeu a chave de todas as portas, Haziel. Você impediu que este “Lugar” nascesse. Vou levá-lo a um “Lugar” que não nasceu ainda…

E ela o levou, mas dessa vez a um lugar inconfundível… O Inferno. O solo pedregoso, a paisagem árida e o céu vermelho, tudo tão familiar como um lar, mas um indesejado. Estavam no alto de uma colina e, Haziel conseguiu ver logo à frente a entrada de uma caverna. Viu também que tinha uma pessoa sentada em frente à entrada, vestindo um manto negro, gasto, sujo e rasgado. A menina o puxou e caminharam juntos naquela direção.

_ Ela toma conta dele, nunca o deixa só, nem nos piores momentos… E espera ansiosamente pela hora em que ele está bem… Eu te trouxe aqui para ver um desses momentos…

_ Ela, ele, do que esta falando, menina?  – indagou.

_ Olhe!

Ele olhou.

Agora já bem próximo, ele viu que a figura de manto na entrada da caverna não era ninguém mais do que Ariel. Ela estava sentada, fitando o chão sob seus pés e as lágrimas vertidas pelos seus olhos. Haziel soltou a mão da menina e caminhou até Ariel. Agachou-se à frente dela.

_ Ariel…  – sussurrou, erguendo a mão pára tocá-la.

_ Ela não pode ver você e não deve tocá-la. – disse a menina e seguiu, adentrando a caverna no mesmo instante em que um monstruoso grito veio lá de dentro. Haziel se levantou, mas ainda manteve seus olhos fitos em Ariel.

_ Temos que entrar agora.  – falou a menina.

Ele a seguiu, entrando na caverna. Caminharam durante algum tempo sob as luzes de archotes presos nas paredes de pedra do longo corredor que a caverna formava. Outro grito sibilante atingiu os ouvidos do Anjo Caído.

E então ele viu…

Viu, no fundo da caverna, preso por grossas correntes, a si mesmo. Entretanto, viu-se da forma demoníaca orquestrada pelo sangue de seu pai, pela herança de Tenebras. As correntes percorriam quase todo o corpo dele que, estava de joelhos com a cabeça baixa e arfando como um animal selvagem.

_ Isso é o que vai acontecer?  – perguntou para a menina.

_ Isto é apenas uma possibilidade…  – ela respondeu misteriosamente.

O Haziel acorrentado ergueu a face demoníaca e dessa vez gritou com tanta fúria e poder que a caverna tremeu… Ele começou a se debater, as correntes pareciam estar prestes a ceder, contudo, parou e ficou em silêncio ao mesmo tempo em que sua pele começou a perder o tom negro, logo, voltando ao normal.

Passos foram ouvidos, vindo da entrada da caverna. Ariel passou por eles e se postou de joelhos em frente ao Haziel acorrentado e o abraçou.

O Anjo Caído de mãos dadas com a menina ouviu;

_ Está tudo bem, meu amor. – sussurrou Ariel e beijou-o nos lábios.

_ Não está nada bem, Ariel. Quero que vá embora, por favor, apenas vá embora. – havia dor, angústia e uma genuína preocupação nas palavras dele.
_ Vou ficar com você. – Ariel o abraçou com mais força e ele apoiou sua cabeça no ombro dela. Ficaram ali, imóveis, aproveitando o pouco tempo que tinham até que o sangue de Tenebras o dominasse novamente.

_ Como eu faço pra impedir que isso aconteça?  – Haziel perguntou para a menina.

_ O que você sempre fez, Haziel, lutar e nunca desistir. E no fim de tudo, você terá que abdicar daquilo que mais ama… – a voz da menina foi ficando cada vez mais longe, assim como a imagem que via dela, tremeluzir, esvair-se como se feita de fumaça. Ele tentou correr na direção da menina, pois eis que, subitamente, estava longe, longe, longe…

Abriu os olhos mais uma vez e fitou o quarto já tão familiar da Igreja do Padre Joseph. – tudo fora um sonho… Não tinha ido a lugar algum. Dormia em seu quarto e por alguma razão a sua mente lhe pregara aquela peça como se fosse algum tipo de aviso premonitório. Ergueu-se e ficou sentando na cama. Sentiu-se cansado, mas deveria ser o oposto, já que dormira por tanto tempo. E, então, estava lá em cima do criado-mudo onde antes só tinha uma bíblia deixada pelo Padre Jacob, mas agora em cima do livro sagrado, ele viu uma rosa, a mesma que a menina tinha em mãos.

Ele fitou a flor durante um longo momento, não disse ou pensou coisa alguma. Recebeu aquilo com a mesma naturalidade com a qual vemos a chuva, o sol, a neve.

Madeleine.

•novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

Madeleine  A noite inspirava tensão. Ela podia sentir a tensão na atmosfera, no ar difícil de respirar. A chuva cessara, mas o céu noturno permanecia sem estrelas, e a lua crescente estava oculta por nuvens espessas. A escuridão querendo encobrir a luz, a luz querendo se esconder, a batalha entre luz e sombras sufocando as testemunhas. Ela fora paciente, mais do que se imaginava capaz, porém aquela história já ia longe demais naquele momento. Tudo bem com fantasmas, espíritos, e afins, mas ela perdera a conta de quantos planos o homem descrevia. Mantendo sempre uma postura altiva, a jovem estivera de costas para o homem que chegara poucas horas antes, escutara-o, oferecera-lhe água, pouso e comida. Certamente, todo o seu tempo e paciência também. À distância, Madeleine tinha pouco de extraordinário. O corpo, de curvas perfeitas, estava coberto por uma calça jeans e um sobretudo, os cabelos escuros, longos e ondulados, caíam sobre o rosto com certo desalinho. Virou-se para o estranho, encarando-o com os olhos acinzentados.

  A verdade. Era pedir muito? Todos aqueles anos, e achando que tudo fosse imaginação, ou talvez até loucura mesmo…Aquela mulher mal conseguia esconder a fúria, e sequer conhecera antes um sentimento tão violento, capaz de transformá-la tão completamente. O olhar intenso, quase fulminante, era praticamente o único indício de emoção que ela demonstrava: qualquer outra pessoa teria retorcido completamente a face diante de tamanha fúria. O homem à frente dela certamente possuía um aspecto deplorável, apesar de inspirar uma nobreza decadente. Ela também, no fundo, estava tão perdida quanto ele, e sabia disso. Deu um passo à frente, dividida entre colocá-lo no colo como uma criança pequena, e avançar no pescoço dele. Madeleine teve tempo de ver seu reflexo no vidro embaçado, os olhos escuros quase marejando. Levou uma mecha do longo cabelo negro para trás da orelha, enquanto escutava mais uma ou duas palavras do desconhecido.

  “Deus! mas que Deus, Madeleine?! Se os horrores que você viu realmente forem reais como esse homem diz, então, nenhum deus, nenhuma força divina existe…O que será que ele quer de mim?”

  Ela respirou profundamente, por três vezes, tentando não agarrar o pescoço da pobre criatura. Não, matar era algo que ela seria incapaz de fazer. Observou novamente aquele homem, porém a partir de uma perspectiva mais atenta, e até mesmo quase impessoal. Aquele certamente não se tratava de um qualquer…que sentimento estranho…algo nele parecia levá-la de volta ao passado, aquelas lembranças, ou sonhos, novamente invadindo os pensamentos dela. Pensamentos que a distanciavam do presente e levavam a um passado quase esquecido, ou ao menos, que permanecera oculto até ali.

  A noite sempre testemunha segredos sempre envoltos em mistérios, segredos que qualquer um que os conheça, daria tudo de si para esconder. Aquela não era diferente. A chuva não dava trégua, raios seguindo uma sequência crescente de violência, e estrondos. Madeleine estava alheia a tudo, segura em seu sono profundo. Despertou apenas com uma das trovoadas mais estrondosas, e com um pensamento: dor. Alguém sentia, ou sentiria uma dor imensa. Uma alma se perderia, e perderia um amor que parecia ser capaz de sobreviver a tudo.

  “Por quê?”

  A pergunta poderia soar infantil demais, até mesmo para a criança, mas tudo precisava ter um motivo, uma razão maior, não precisava? Do contrário, como aceitar tantos sofrimentos, vividos ou presenciados em vão? Como era possível aceitar carregar certos estigmas?

  Os pensamentos da garota foram interrompidos pela visão de uma entidade que ela só poderia descrever como um anjo. No estado em que estava, entre o sono e a vígilia, não teve certeza sobre a realidade da bela figura. Em seu sonho, chegou a perguntar para a entidade se ela era um anjo. A resposta que o anjo dera a ela poderia fazer com que ela abrisse os olhos com espanto, se estivesse de fato desperta.

  Madeleine teve sonhos inquietantes naquela noite chuvosa. Asas e espadas poderosas em um combate violento, alguém defendendo algo, ou alguém, que era ao mesmo tempo uma ameça e uma esperança.

  Com o tempo, a criança deixou de acreditar no que via, retraíra-se, não dividia temores aparentemente infundados com ninguém.

  Vinte anos depois, escutaria de um desconhecido estranhamente familiar que tudo o que ela via era real, que atrás de todos os véus, existiam mundos ocultos, e que ela poderia ser a chave para eles. Havia risco em ser aclamada por uma antiga profecia, devido a um combate antiquíssimo entre anjos e demônios. Madeleine continuou escutando o que homem tinha a dizer, entretanto, ela mal podia compreendê-lo. Ou o que ele dizia era complexo demais, ou ele era louco.

Ariel

•novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

arielNada se via além da cortina de água derramada pelos céus, como se este estivesse chorando, logrado por toda a dor que presenciara naquele mundo, dia após dia. E com imenso sentimentalismo chorava. Lavando os trajes já há muito encharcados da figura que, do alto do prédio fixava seu olhar naquele mar atormentado. Na verdade não havia um ponto em si. Seus olhos pareciam mais vagos que o próprio vácuo, distante, para além de qualquer ser que pudesse se aproximar dela – se que alguém ousaria chegar até ali. A própria força da chuva não a atingia. E o medo comum que os riscos dos raios inflige em pessoas também não a perturbava, e só servia para aumentar a beleza e mesclar a cor dos seus cabelos vermelhos e úmidos que escorriam por sua face alva. Nem mesmo a distanciava por um segundo sequer de suas lembranças, tão escuras como o céu sob sua cabeça…
Uma criança dormia em um quarto qualquer, longe de todo o calor que lhe avermelhava as faces, corando-as. Não só pelo calor, mas também pela raiva que se apoderava de cada poro do seu ser. A íris dos olhos contraídas em um esforço para não derramas lágrimas. Toda a culpa ela direcionava para aquele pequeno quarto, aquecido e minuciosamente cuidado para que nada lhe faltasse, para que o calor não se esvaísse, e a imagem de algo já morto não se apagasse.

Haziel.
Porque? – Ela se perguntava. – Porque abandonastes tudo em prol de um sonho esquecido? De um ser pequeno e já tão perigoso para a perpetuação daquilo que tanto preza, ou prezava.
Não sabia responder.

Haziel sempre habitou sua mente, seu coração. Estava sempre ao seu lado, compartilhando um dos bens mais belos que poderiam doar: Seus próprios corpos. Seu cerne. Seu amor.

Aquela criança de rosto angelical e sonhos inocentes destruíra uma promessa a muito feita. E agora ali, diante as asas abertas do anjo ferido, Haziel, ela tinha de cumprir com seu dever, tão doloroso quanto qualquer golpe que viesse a ser deferido conta si, o que na verdade era. Um golpe. Haziel deixava tudo para proteger o que muitos dos seus iguais – seus irmãos – buscaram destruir, ele mesmo os matara, os próprios irmãos. Talvez isso pudesse perdoar. Mas e quanto a ela? A promessa em que acreditava agora se quebrada. Não, isso ela não conseguia perdoar. Nada era mais digno para ele que o próprio inferno.
Destinar ás chamas e a dor aquele que mais amou durante toda a sua vida era destinar-se também a uma vida de miséria e sobre tudo de escuridão.
Breu.
 Era tudo que restara para ela desde o instante em que as chamas se abaixaram levando consigo o ser agonizante que era Haziel. Era como se uma nuvem negra se postasse sobre ela, vedando também os seus olhos, dos quais fechou com imensa força, tentando afastar aquele aperto que, como uma mão se fechava sobre o seu órgão vital.

Não havia prometido nada a Haziel. Tudo que dissera era a verdade e nada além disso. Odiava a criança, mas não seria ela a lhe dar o fim. Mas agora, anos haviam se passado. A criança deixara de ser pura e inocente, sabia cuidar de si, afinal, filha de quem era não poderia deixar de ter algum dom. E era exatamente este o seu mártir.
Mesmo com o tempo. Ariel não aprendera a aplacar aquela raiva. Apesar da importância que Gabriel também havia tido em sua vida em Paradísia, e somando-se este ao fato passado, permaneceu, de certa forma e até certo tempo, próxima da criança. A preocupação, e sobre tudo, agora, a esperança de ser verdadeira a predestinação, a profecia que circundava aquela criança, hoje mulher.

Já não era de interesse para Ariel a destruição dela, Madeleine, sendo a possível chave que abriria os portões, permitindo a livre passagem dos seres de Infernun, Tenebras e também do Inferno, ao qual ela havia confinado haziel. Em seu intimo sonhava com sua volta. Sonhava em abraçá-lo e reter seu calor, tomando-o para si uma vez mais.

Não resistiu.
A presença de Madeleine, sua simples visão causava-lhe asco. Não suportava a idéia de que, por culpa somente dela, perdera Haziel. Afastou-se então. Mantendo-se alheia ao que pudesse vir acontecer à primogênita de Gabriel, mesmo que a ultima visão de Haziel lhe preenchesse a mente.
Haziel traidor. Haziel caído.

Axel.

•novembro 12, 2009 • Deixe um comentário

Axel.“Pensamentos vazios, almas aprisionadas. A noite infinita se estendendia acima de suas cabeças, bem além do céu escuro de Paradísia e Axel só podia ver a forma perfeitamente desenhada de Ariel no vazio da noite que a rodeava. Foi tudo o que encontrou acima do solo. Ariel estava lá, parada no mesmo lugar durante horas olhando cada passo de Haziel na terra, tentando proteger a menina que também era uma descendente dos seres de Paradísia. Axel sabia o que iria acontecer. Talvez tivesse ficado evidente não por indícios óbvios, mas pelo o que conhecia de Haziel. Não era a primeira vez que havia conflitos entre eles, e Axel sabia muito bem como Haziel agia em certas situações, mesmo que aquela não o permitisse agir a sangue-frio, e por fim Axel sabia que Anjos e Principiados jaziam mortos no chão do quarto.

Suas sombras desapareceram antes de encostá-lo… Lá em cima, no terraço do prédio, Axel via um tribunal Angelical em aberto – Juíza e Réu. Réu condenado.

E então, ele viu todas as palavras proferidas por Ariel abrirem caminho para um grito de tormento. O tormento de Haziel que Axel, mesmo alheio a dor dele, tampou os ouvidos com as mãos. Viu as asas de Haziel serem arrancadas, o chão ao seu redor pegar fogo e a sua alma condenada ao Inferno.

É estranho entender, mas enquanto Haziel estava lá, agachado olhando para as brasas que o rodeavam, e mesmo assim pedindo pela proteção de outra pessoa que não a dele, pouco a pouco Axel percebeu que se sentia triste não por Haziel e sim pela pequena figura atrás dele, que concentrara todas as suas forças para condenar alguém que não a merecia. Não merecia nenhum esforço que ela fizera por ele em tantos anos. Nem mesmo o esforço de condená-lo ao Inferno.

E depois que tudo acabou, Axel continuava ali, parado acima do prédio onde uma pequena batalha havia acontecido no quarto abaixo de seus pés, sentindo-se um humano com sentimentos vorazes, apenas desejando que Ariel desprezasse mais a Haziel como havia feito há uns minutos atrás, mas não pensando na dor que ela sentia naquele momento. Ele seria seu conforto a partir de agora. Conpensaria o que ele não foi para ela. Se vingaria dele. E amaria a ela…

Mas mesmo quando Axel tentava se esforçar para imaginar a agonia que ele sentia, ali – perdido em meio às trevas, na porta do Inferno, rejeitado como anjo e como o ser que era amado por Ariel, ele sabia que não tinha nenhuma intenção de fazê-lo. O Inferno? Ariel o mandaria para o Inferno? Sim, foi para o Inferno que ele foi. Era o Inferno que ele merecia. Ele o viu descer. Haziel não era mais um anjo… era um caído. Era o que merecia ser.

 
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